Luis Fernando Martinez é engenheiro metal-mecânico, formado pela Escola de Engenharia Mauá – SP. É Diretor Comercial para o mercado interno da Companhia Siderurgica Nacional desde 2002
Veja entrevista realizada pela revista Siderurgia Brasil
CSN - TOTAL PRIORIDADE AO MERCADO INTERNO
Sempre à procura de novas oportunidades, a presença da CSN tem sido cada vez mais intensa em todos os segmentos relacionados com a produção de aço, desde a extração de minério até a comercialização de produtos acabados. Em entrevista exclusiva à Siderurgia Brasil, Luis Fernando Martinez, diretor comercial da empresa, faz um resumo dessa estratégia de muita ousadia.
SB – Como está estruturado o escoamento da produção da CSN?
Martinez – A CSN é uma empresa dedicada prioritariamente ao mercado interno, para onde destina cerca de 75% de sua produção total, que atualmente é de cerca de 5 milhões de toneladas. O restante vai para Portugal e Estados Unidos, onde a CSN tem plantas relaminadoras, que operam nos mercados locais. A exportação da CSN para clientes fora do grupo é, portanto, praticamente zero. Temos alguma exportação de folhas metálicas para outros clientes fora das empresas CSN. Esse é um conceito muito importante: contando com duas unidades próprias para escoar sua produção, a CSN não depende de exportações. Essas plantas não são spot sellers no mercado; elas vendem nos mercados europeu e americano sem pagar nenhum penalty. Esse é o nosso modelo de produção e escoamento.
SB – E, dentro do mercado interno, como é direcionada a produção da CSN?
Martinez – No mercado interno, a CSN tem um portfolio de produtos muito extenso e, entre as usinas brasileiras, é a que tem o portfolio mais completo. Nós produzimos laminados a quente e a frio, zincados, Galvalume, pré-pintados e folhas metálicas. Estamos estruturados para atender entre 56% e 57% do output de produtos revestidos. A CSN é, portanto, uma usina muito focada nesse tipo de produto, o que significa que nós buscamos agregar valor aos produtos que oferecemos em todos os mercados. Por exemplo, no mercado de distribuição da construção civil, apesar de existir o laminado a quente e a frio, nós tratamos de colocar o pré-pintado ou o Galvalume, para fazer telhas, coberturas, fachadas etc. No mercado de linha branca, nós fornecemos aços pré-pintados e zincados. Para a linha automotiva, temos uma linha na Galvasud que produz o zincado para peças expostas. Temos também uma grande quantidade de projetos com folhas metálicas que fornecemos à Nestlé e Unilever, além de outros clientes do mercado.
SB – Qual é a atual posição da CSN no mercado mundial?
Martinez – A CSN é a 49ª usina dentro do ranking do IBS, no que se refere à produção de aços planos. Só para se ter uma idéia, todas as usinas do mundo produzem algo em torno de 1 bilhão de toneladas de aço por ano, e a CSN produz 5 milhões. É uma posição que nem de longe situa a CSN entre os top ten, mas essa é também uma das razões para a CSN continuar tentando realizar fusões.
SB – Qual foi o efeito do problema que ocorreu num dos altos-fornos no ano passado no desempenho da empresa?
Martinez – Como conseqüência desse problema, para poder atender os nossos clientes, foi necessário importar cerca de 1 milhão de toneladas de placas. Obviamente, nós vamos ter alguma penalização, mas conseguimos fazer desse episódio um aprendizado muito grande e acho que saímos dele melhor do que imaginávamos. O problema com o alto-forno começou no dia 22 de janeiro e se estendeu até o dia 20 de junho, e ele voltou a funcionar a plena carga em agosto. Já está sendo feita toda uma ação de cobrança do seguro, para que os prejuízos da CSN sejam ressarcidos. Tudo o que foi danificado já foi reparado e o outro alto-forno da empresa continuou operando. Mas o que teve problemas responde por 60% a 65% da produção da empresa, e o outro, pelos 35% a 40% restantes.
SB – Qual é a previsão de produção da CSN para 2007?
Martinez – Em 2007, nós estamos prevendo voltar à faixa normal de produção, ou seja, em torno de 5 milhões de toneladas de produtos acabados. Em aciaria, deve se chegar a um pouco mais, sempre com o mix que já foi citado – 75% para o mercado interno e 25% para o externo –, reforçando o fato de que a quase totalidade dessa produção vai para nossas próprias unidades e viram produtos europeus ou norte-americanos. Desse modo, quando são vendidos, eles não mais produtos made in Brazil; eles são processados, cortados, re-embalados etc. Nós agregamos valor lá fora também e, por isso, nossos produtos não têm nenhuma desvantagem, que teriam se eles participassem do mercado internacional de maneira spot. Em relação a 2006, deve haver um crescimento, como conseqüência do problema que tivemos no alto-forno, mas a CSN já trabalhava com a capacidade de 5 milhões de toneladas há algum tempo.
SB – Como é a distribuição dos mercados internos da CSN?
Martinez – Nós temos um mercado muito equilibrado. Um setor muito importante é o de embalagens, já que a CSN é o único fornecedor da matéria-prima que ele utiliza. Aliás, vale lembrar que essa posição de único fornecedor nacional de tin plate é algo que nos incomoda, porque nos força a concorrer com outros materiais, como tetrapack, plásticos e pet, o que é algo mais complexo. Mas esse mercado é de fato muito importante para a CSN, porque nele atendemos clientes de grande porte. Outro mercado que tem crescido bastante na CSN é o da construção civil, em função dos investimentos que foram feitos na CSN Paraná, que é uma unidade focada na grande rede da construção, de linha branca e OEM (original equipamente manufacturers), que é o segmento mais industrial, em que a CSN tem uma posição muito interessante por ter muitos produtos revestidos. Na linha automotiva, como já foi mencionado, nós temos os produtos da Galvasud, que facilita nossas vendas de peças expostas para as montadoras. Mas algo muito positivo para nós – repito – é o fato de termos um faturamento muito equilibrado entre todos os mercados em que atuamos, porque, quando um mercado está um pouco fraco, ele acaba sendo compensado pelos outros.
SB – Como estão os preços internos em relação aos internacionais?
Martinez – Os preços do mercado interno são razoavelmente melhores que os internacionais, e isso não se deve tanto ao valor em si, mas ao câmbio, que acaba tornando nossas exportações menos rentáveis. Por isso é sempre mais vantajoso vender no mercado interno. Aliás, cabe reiterar que a CSN é uma usina que está no Brasil para atender aos clientes brasileiros; ela nunca forneceu menos do que 65% ao mercado interno e, cada vez mais, em função do número de clientes, que tem crescido, e de novas aplicações, que vêm sendo desenvolvidas, a tendência é ficar ainda mais forte.
SB – Na sua avaliação, qual deve ser a tendência dos preços do aço no mercado interno?
Martinez – Nós tivemos aumentos do minério de ferro, de matérias-primas, como zinco, cobre, estanho e alumínio, que acabam afetando os custos de produção. Houve também aumento nos fretes internacionais, que onera o coque que vem da China. Além disso, os preços lá fora estão muito firmes e vêm subindo. Várias usinas anunciaram, e inclusive já implementaram, alguns aumentos de preço, e o Brasil deve seguir essa tendência, já que não tem como ficar fora desse cenário mundial. Os preços dependem também do próprio momento da economia brasileira, que é muito favorável, tendo começado o ano bem aquecido em todos os mercados. Tudo isso é muito positivo, porque existe demanda interna e um cenário externo também favorável. Portanto, existe uma tendência de elevação de preços no mercado interno, embora eu não acredite que seja muito expressivo.
SB – Quais são os planos de crescimento da CSN?
Martinez – Vamos supor que a CSN tenha quatro pilares. O primeiro, que é muito forte, é o da siderurgia, cuja capacidade deve ser aumentada em 9 milhões de toneladas, com uma usina em Itaguaí (RJ) e outra que pretendemos construir em Minas Gerais ou no Rio de Janeiro. Nesse pilar, a capacidade de produção passaria, então, de 5 milhões para 14 milhões de toneladas anuais. A usina de Itaguaí deve começar a operar em 2010 ou 2011, e a outra ainda está na fase de definição de sua localização. Outro fato importante é que, dentro de um ano e meio, a CSN vai produzir aços não planos. Em Volta Redonda, vão ser produzidos cerca de 500 mil toneladas anuais de vergalhões, fios-máquina, perfis e barras, aproveitando a estrutura já disponível na usina, onde temos equipamentos que poderão ser usados sem precisar de muito investimento.
SB – Esses investimentos serão feitos com recursos próprios ou através de fusões?
Martinez – Todos serão feitos com recursos próprios. Obviamente, vamos utilizar alguma linha de financiamento, mas contando somente com a própria empresa. Outro pilar da CSN é o de mineração, onde vamos dar um salto de 12 para 55 milhões de toneladas de minério extraídas. Uma parte desse volume vai ser utilizada pelas próprias usinas da CSN, mas a outra pode ser exportada ou destinada a uma eventual aquisição. O fato é que a produção vai aumentar ano a ano, passando de 20 para 30, 40 e 50 milhões, até 2008. No final de 2010 ou início de 2011, o objetivo é chegar a 55 milhões de toneladas.
O tercerio pilar da CSN é o de infra-estrutura e logística, através de uma participação de 32% na MSR, e também de participações na Ferroviária do Nordeste e no porto de Sepetiba, onde temos um terminal de conteineres de carga e de produtos siderúrgicos. A logística é um bom negócio na medida em que dá suporte à exportação de minério.
Outro pilar, no qual estamos entrando agora, é o de cimento. O mercado brasileiro de cimento é de 30 milhões de toneladas por ano e a CSN pretende participar com cerca de 10% desse mercado. A unidade de produção vai se localizar também em Volta Redonda e os equipamentos devem chegar no final deste ano.
SB – Dados todos esses projetos de crescimento, está prevista alguma mudança no market share da CSN no mercado?
Martinez – Naturalmente, nós estamos trabalhando para aumentar o nosso market share, mas esse é apenas um ponto a ser considerado. Outro ponto, talvez mais importante, é a rentabilidade, já que não adianta nada ter uma market share muito alto e uma rentabilidade baixa. A atuação da CSN está sempre focada na obtenção de uma boa margem. Como nós temos produtos com muito valor agregado e uma base de cliente bastante interessante, a CSN tem condições de crescer, tendo uma participação expressiva no mercado – mas sempre com muita rentabilidade.
SB – Na sua avaliação, como deve crescer o mercado interno de aço?
Martinez – Nós estamos prevendo um crescimento em torno de 7% para o mercado brasileiro de aço, que pode ser até um pouco maior, inclusive em função da revisão do PIB que está sendo feita, embora seja muito cedo para se ter alguma certeza. Com muito otimismo, na minha opinião, poderia chegar a crescer até 10%. Mais do que isso, nem seria interessante porque não seria um crescimento sustentável. O mercado está bastante firme, os clientes estão otimistas, o mercado da construção civil está bastante empolgado com o PAC e o de distribuição está com o seu estoque muito equilibrado. O automotivo está indo muito bem com sua linha popular impulsionada por planos de finaciamento que permitem adquirir um automóvel em até 72 meses. Quando se tem crédito relativamente barato, ele acaba alavancando o mercado interno. E é isso o que nós precisamos: fortalecer o mercado interno.